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Design feito à mão reposiciona as tradições artesanais na decoração

Fonte de renda de cerca de 10 milhões de pessoas, o artesanato brasileiro movimenta aproximadamente R$ 100 bilhões de reais por ano de acordo com o Sebrae Nacional. Boa parte deste faturamento, responsável por melhorar a vida de diversos artesãos espalhados pelo país, é resultado da inovação provocada pelo design nos últimos anos.

“Com a proposta de ampliar o alcance do feito à mão, ao utilizar o design como ferramenta, promovemos o resgate e a atualização de técnicas tradicionais, além de contribuir para manter o artesanato como um importante instrumento de geração de renda para artesãos”, revela Zizi Carderari, diretora criativa do Estúdio Avelós, uma da principais referências brasileiras no trabalho com artesanato.

Jornalista e designer, Zizi atua há mais de 30 anos valorizando a criatividade brasileira. O Avelós surgiu após a realização do Projeto Sertões, ação que tem como objetivo mapear e catalogar as diferentes técnicas artesanais presentes em nosso território, desenvolvidas a partir da integração dos povos que formam a nossa identidade.

Com isso, tem buscado posicionar o artesanato como um item indispensável na decoração brasileira. “Cada vez mais, as pessoas têm entendido o quanto o Brasil é referência no feito à mão, tanto na diversidade de técnicas e saberes, quanto na qualidade do trabalho”, afirma.

Cada vez mais valorizado, o artesanato tem sido associado à arquitetura moderna e contemporânea, estando presente em projetos de grandes arquitetos. É o caso do projeto da loja +55 Design que incorpora elementos tradicionais do modernismo, como o cobogó, uma das principais contribuições nordestinas à arquitetura modernista.

Pensado pelo escritório Arthur Casas, os cobogós são elementos estéticos que, por serem vazados, contribuem tanto com a iluminação, quanto com a ventilação do ambiente.

Tradição e impacto familiar

As roupas de cama, mesa e banho, produzidas pelo Estúdio Avelós, em conjunto com artesãos de Carmo do Rio Claro, em Minas Gerais, resultam de sua parceria mais longínqua. Há anos, ao menos 15 famílias têm os teares como sua principal fonte de renda.

Celebrando a tradicional tecelagem mineira – com influências majoritariamente portuguesas – os produtos são feitos em 100% algodão, em teares manuais e reconhecidos pela padronagem de suas coleções. Em Carmo, os teares fazem parte da história e da estética visual e sonora da região, que teve a mestre artesã Anezia Freire como uma das precursoras da tecelagem local. “Quando você chega à cidade, o barulho dos teares fazem com que você entre naquela atmosfera”, completa Zizi.

Em suas passagens por lugares distintos do Brasil, algumas técnicas acabaram lhe chamando a atenção, sobretudo aquelas que tinham seu potencial quase inexplorado. Localizado às margens do Rio Brito, no município de Pirambu, em Sergipe, o Povoado Quilombola de Alagamar mantém uma tradição secular com o trançado da palha de ouricuri.

Retirada à mão da palmeira típica da caatinga, a palha era usada majoritariamente para produzir tapetes, cestos e chapéus para uso próprio que serviam para ajudar na proteção de pescadores e trabalhadores do campo durante as longas horas de exposição ao sol.

“Quando eu vi aquele trabalho, enxerguei um potencial de design que poderia ser desenvolvido e, com pequenos ajustes, seria possível trazer sofisticação às peças e inseri-las em um mercado capaz de valorizá-lo”, afirma.

Entre uma pesquisa e outra, Zizi teve contato com o trabalho da Evanilce de Souza, 32, a Nequinha. Moradora do município de Itaiçaba, no Ceará, ela passou a trabalhar na área depois de um projeto de inovação com artesãos realizado em 2018 pelo Museu A CASA do Objeto Brasileiro.

Durante as oficinas com o trançado de palha de carnaúba, palmeira símbolo de seu estado, ganhou destaque por não conseguir reproduzir fielmente os desenhos desenvolvidos pelos curadores do projeto. Mais tarde, com o incentivo de Zizi, ela passou a incluir novos trançados, formas e até cores.

“Hoje, as luminárias e cestos que faço são a minha principal fonte de renda, já viajei para São Paulo, Minas Gerais e outros lugares, sempre apresentando o meu trabalho”, revela Nequinha, que se tornou uma das principais referências do artesanato cearense, tendo suas peças inseridas em grandes projetos de design de interiores e até participando da Maison & Objet, em Paris, França.

FONTE: casacor.abril.com.br

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